Os problemas provocados pelas hérnias dos discos da coluna provocam, numa parte significativa da população, uma diminuição da qualidade de vida. Até há bem pouco tempo, o tratamento para os casos mais incapacitantes era a cirurgia invasiva. Mas de há cinco anos a esta parte está a ser utilizado na Europa um novo tipo de intervenção minimamente invasiva, que se tem revelado muito eficaz.

Pedro Nunnes, neurorradiologista do Hospital da Lapa, tem feito esforços para divulgar este método, ainda pouco conhecido e utilizado em Portugal. Em conversa com o «Ciência Hoje», explicou as vantagens deste tratamento inovador percutâneo do disco por mistura de ozono.

Os discos intervertebrais, estruturas flexíveis localizadas entre as vértebras, actuam como amortecedores, permitindo todos os movimentos da coluna. Ao mesmo tempo, ajudam a suportar os impactos mecânicos e o peso do corpo.

Devido a factores variados como idade, esforços físicos ou problemas biomecânicos, estes podem deslocar-se, comprimindo raízes nervosas e originar, para além de dor na coluna, sintomas referidos aos segmentos dependentes dessas estruturas nervosas, nos braços ou nas pernas.

O procedimento percutâneo por mistura de ozono “já não é propriamente novo”, refere. “Tem sido desenvolvido por neurorradiologistas, tendo começado a expandir-se há uns quatro ou cinco anos na Europa”. Em Portugal é pouco comum, “até porque a própria classe médica está pouco informada sobre esta técnica”. Em países como Alemanha, França, Itália e Espanha tem havido uma adesão cada vez maior.

O tratamento com mistura de ozono difere da cirurgia convencional em vários pontos. “O doente está acordado e submetido a uma anestesia local, ao contrário do que acontece na cirurgia, feita sob anestesia geral. Através do controlo de imagem num aparelho de TAC, a agulha é introduzida até ao centro do disco a tratar: O facto do paciente estar acordado permite que este refira quando o nervo é atingido, tornando mais fácil e rápida a intervenção”, explica.

Uma hérnia “é a continuação do disco para fora do seu local original. É através de uma fraqueza no anel fibroso, que rodeia perifericamente o disco, que faz com que este saia do seu local e, possa potencialmente comprimir os nervos adjacentes. Na cirurgia convencional é preciso chegar ao osso, tirar parte deste e também extrair parte do disco”.

A cirurgia convencional pode ser eficaz a médio prazo, contudo enfrenta alguns problemas. A questão da hérnia “pode ficar resolvida durante alguns anos, no entanto, o facto de se ter criado um desequilíbrio entre o osso e o disco, acelera o processo de artrose próprio da idade. Esta nova técnica não extrai nada, nem osso nem disco”.

O ozono “faz com que o disco encolha e volte ao seu sítio inicial. O disco reduz, pode não voltar na sua totalidade mas também fica mais amolecido, reduzindo a pressão sobre o nervo atingido. Para além disso, o ozono tem um efeito anti-inflamatório local muito potente, sobre o nervo lesado”

A recuperação é mais rápida: “Depois de quatro ou cinco dias de descanso, está-se apto a voltar à vida normal não sendo necessária fisioterapia”. Além do mais, o tratamento é anti-séptico, não havendo registo de nenhum tipo de problemas infecciosos como podem ocorrer em cirurgias mais invasivas.

O doente nunca fica pior. O que pode acontecer, “e em apenas cinco por cento dos casos, é o disco não responder. Por isso, na pior das hipóteses, o paciente fica na mesma”. De resto, a recuperação é total. Não existem complicações nem efeitos secundários major associados a este procedimento. Há relatos escassos de dor de cabeça após a procedimento, que resolve no máximo em cerca de uma hora, refere. É, também, “mais barata do que a cirurgia convencional, isto porque, entre outras coisas, não é utilizado o bloco operatório, conclui.